A menina mal comportada
Mayra Dias Gomes tem na alma a rebeldia dos anos 70: seus livros são viagens de autoconhecimento, regadas a sexo, drogas e rock’n'roll. Ela escreveu o primeiro romance, Fugalaça, com apenas 17 anos, e acaba de lançar o segundo, aos 21: Mil e uma noites de silêncio (Record, 304 pgs.), que conta a história de Clara, uma jovem solitária em busca de um laço humano verdadeiro. Abandonada pelos pais biológicos, largada pelo noivo no altar e órfã da mãe adotiva, Clara vive uma existênca em negativo, na qual os dias se arrastam sem motivação. Marcada pelas perdas e pelo abandono, ela se sente incapaz de se integrar na sociedade e coleciona noites insones. Depois de mais uma decepção amorosa, Clara decide mudar de vida e parte para a inóspita e sombria Bangônia, onde se depara com um cotidiano de prostituição, tráfico e glam rock. No meio disse tudo ela encontra também a juventude perdida – e decide romper com seus tabus. Nesta entrevista, Mayra – filha do falecido dramaturgo Alfredo Dias Gomes – reforça a sua imagem de garota mal comportada, coerente com sua literatura.
G1: Tendo estreado tão jovem, você sente que já amadureceu como escritora?
MAYRA: Um escritor deve amadurecer a cada livro. Certamente amadureci de Fugalaça para cá, mas tenho certeza de que ainda amadurecerei mais ainda nos próximos trabalhos. Quando escrevi Fugalaça, simplesmente vomitei meus sentimentos e traumas para tentar me curar de fantasmas que me assombravam. Em Mil e Uma Noites de Silêncio, criei um universo ficcional, cheio de personagens com profundidade, e uma narrativa cheia de mistério, que se desenrola como em um pesadelo. Aqui eu precisei realmente estruturar meus pensamentos, ao invés de simplesmente vomitá-los com uma catarse. Agora posso ter certeza de que sou uma escritora, e não uma menina a fim de publicar seu diário.
G1: Você se sente integrada à sua geração – ou, ao menos, a uma tribo da sua geração? O que definiria essa tribo? Que valores, que comportamento, que relação com a vida?
MAYRA: Sinto-me integrada à minha geração, é claro. Recebo diariamente e-mails de meninas e meninos que se identificam com o que eu escrevo e estão em busca de conselhos. Minha geração é muito imediatista e não sabe lidar com prazos e espera. É uma geração que nasceu na frente do computador, podendo descobrir qualquer coisa com um clique no Google, podendo manter relacionamentos muitas vezes frágeis pelas redes sociais. Minha geração quer soluções imediatas para qualquer problema. Nunca tivemos que enviar uma carta na vida. Temos laços muito frágeis e mudamos de idéia facilmente. Sou parte disso, com certeza. Meus leitores se identificam comigo porque sou como eles. A única diferença é que estou aqui dando a cara a tapas, e eles gostam de mim por isso.
G1: Sua ficção parece ser um decalque da sua vida. Escrever, para você é uma forma de terapia, de auto-análise? Está funcionando?
MAYRA: Escrever pra mim é como respirar. Posso escrever sobre o que está me atormentando, mas também posso escrever sobre uma parede branca. Certamente, quando falo de mim mesma, estou fazendo uma autocrítica, sendo minha própria terapeuta. É claro que funciona, mas só depois que vejo de fora, depois de publicado. Quando estou escrevendo, geralmente não faço a menor idéia do que vai dar. Eu sou guiada pelos personagens, simplesmente faço o que eles mandam. Pode ser que eles sejam parte de mim ou não. E pode ser que eles me representem também através de antagonismos.
G1: Quem te influenciou na literatura? Com que autores você dialoga?
MAYRA: Baudelaire, Bukowski, Jack Kerouac, William Burroughs, Hunter S.Thompson e o amado e temido Lester Bangs.
G1: E quem te influenciou na atitude e na vida? você sente nostalgia de uma contracultura que não viveu, dos anos 60 e 70?
MAYRA: Minhas influências são todas musicais. Acho que comecei a gostar do Marilyn Manson quando tinha uns 13 anos. Ele era o máximo naquela época, não havia perdido a perspectiva como agora, e falava diretamente comigo, me mandando não me importar com a sociedade que me julgava e dar o dedo do meio para tudo. Eu estudava numa escola elitista e me sentia muito diferente das outras pessoas. Era a ovelha negra.(Uma observação é que cheguei a entrevistar o Manson quando comecei a trabalhar como repórter musical.) Kurt Cobain também foi uma influência forte quando eu era nova, pois cheguei a morar em Seattle, no apartamento da gravadora que havia lançado o primeiro disco do Nirvana. Eu me sentia confortável na melancolia do Kurt, confortável para abraçar minha tristeza quando sentisse vontade. Nessa época eu me sentia muito feia, e adorava escrever cartas de suicídio. Mais tarde, comecei a me espelhar no Iggy Pop, nos Ramones, e em toda a galera do punk. Em geral, sempre quis ter coragem de fazer qualquer coisa que tivesse a fim sem me importar com a opinião dos outros. Consegui. Mas não gostaria de ter vivido nos anos 60 e 70. Tirando a música, imagina a merda que devia ser?
G1: Que importância têm hoje na sua vida 1) o sexo, 2) as drogas e 3) o rock’n'roll?
MAYRA: Você quer que eu fale o quão importante é o sexo pra mim? Acho uma pergunta estúpida, pois o que seria da vida sem sexo? As drogas foram uma maneira que eu encontrei de escapar para outro mundo em momentos de tristeza profunda com qual eu não sabia lidar. Acho que todos os adolescentes experimentam alguma droga durante a fase de insegurança, descobertas e medos. A diferença é que eu usei um monte delas, mas honestamente, não tenho o menor preconceito contra mim. Fiz o que quis e ponto. Precisava disso naquela época. Sou honesta para admitir, pelo menos. Sobre o rock, vamos lá, é simplesmente a minha vida. Meu trabalho hoje em dia é escrever sobre rock, entrevistar grandes músicos de rock, ouvir álbuns de rock, e sempre estar nos shows. Sou colaboradora do site da revista Spin, a segunda maior de música dos EUA. Recentemente, aliás, estive na Finlândia a convite do próprio governo do país, para participar de reuniões em gravadoras, agências, associações de exportação, entrevistar bandas e fazer a cobertura de um festival de metal extremo. Foi minha recompensa por amar tanto o rock’n’roll. Foi a melhor viagem da minha vida.
G1: Você não tem medo de virar uma personagem de si mesma?
MAYRA: Que seja o que for pra ser. Não quero ter medo de nada.
LEIA UM TRECHO DO LIVRO:
“Eu fiz o esperado e deixei meu corpo se acostumar com mais fúria. Fiz o esperado com um sorriso amarelo no rosto e um fulgor nos olhos que não era de felicidade. Eram lágrimas raivosas que queriam pular e inundar tudo. Enquanto colocávamos as caixas marrons de papelão dentro do caminhão emprestado da floricultura, eu sentia vontade de explodir. Explodir, pois odiava tudo. Odiava Lukas, odiava a mudança, odiava as caixas, as coisas dentro delas, meu apartamento, as memórias, o passado, o presente, o futuro, as escolhas, o céu nublado, a floricultura, o tempo irreversível, a insônia, a vida a Morte, o vazio, o buraco negro, eu. E, no entanto, não odiava tudo tanto assim.”
Postado por Luciano Trigo em 19 de julho de 2009 às 18:10 em Máquina de escrever

















