terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Mil e uma noites de silêncio - Mayra Dias Gomes

A menina mal comportada

Mayra Dias Gomes tem na alma a rebeldia dos anos 70: seus livros são viagens de autoconhecimento, regadas a sexo, drogas e rock’n'roll. Ela escreveu o primeiro romance, Fugalaça, com apenas 17 anos, e acaba de lançar o segundo, aos 21: Mil e uma noites de silêncio (Record, 304 pgs.), que conta a história de Clara, uma jovem solitária em busca de um laço humano verdadeiro. Abandonada pelos pais biológicos, largada pelo noivo no altar e órfã da mãe adotiva, Clara vive uma existênca em negativo, na qual os dias se arrastam sem motivação. Marcada pelas perdas e pelo abandono, ela se sente incapaz de se integrar na sociedade e coleciona noites insones. Depois de mais uma decepção amorosa, Clara decide mudar de vida e parte para a inóspita e sombria Bangônia, onde se depara com um cotidiano de prostituição, tráfico e glam rock. No meio disse tudo ela encontra também a juventude perdida – e decide romper com seus tabus. Nesta entrevista, Mayra – filha do falecido dramaturgo Alfredo Dias Gomes – reforça a sua imagem de garota mal comportada, coerente com sua literatura.
 
G1: Tendo estreado tão jovem, você sente que já amadureceu como escritora?

MAYRA: Um escritor deve amadurecer a cada livro. Certamente amadureci de Fugalaça para cá, mas tenho certeza de que ainda amadurecerei mais ainda nos próximos trabalhos. Quando escrevi Fugalaça, simplesmente vomitei meus sentimentos e traumas para tentar me curar de fantasmas que me assombravam. Em Mil e Uma Noites de Silêncio, criei um universo ficcional, cheio de personagens com profundidade, e uma narrativa cheia de mistério, que se desenrola como em um pesadelo. Aqui eu precisei realmente estruturar meus pensamentos, ao invés de simplesmente vomitá-los com uma catarse. Agora posso ter certeza de que sou uma escritora, e não uma menina a fim de publicar seu diário.

G1: Você se sente integrada à sua geração – ou, ao menos, a uma tribo da sua geração? O que definiria essa tribo? Que valores, que comportamento, que relação com a vida?

MAYRA: Sinto-me integrada à minha geração, é claro. Recebo diariamente e-mails de meninas e meninos que se identificam com o que eu escrevo e estão em busca de conselhos. Minha geração é muito imediatista e não sabe lidar com prazos e espera. É uma geração que nasceu na frente do computador, podendo descobrir qualquer coisa com um clique no Google, podendo manter relacionamentos muitas vezes frágeis pelas redes sociais. Minha geração quer soluções imediatas para qualquer problema. Nunca tivemos que enviar uma carta na vida. Temos laços muito frágeis e mudamos de idéia facilmente. Sou parte disso, com certeza. Meus leitores se identificam comigo porque sou como eles. A única diferença é que estou aqui dando a cara a tapas, e eles gostam de mim por isso.

G1: Sua ficção parece ser um decalque da sua vida. Escrever, para você é uma forma de terapia, de auto-análise? Está funcionando?

MAYRA: Escrever pra mim é como respirar. Posso escrever sobre o que está me atormentando, mas também posso escrever sobre uma parede branca. Certamente, quando falo de mim mesma, estou fazendo uma autocrítica, sendo minha própria terapeuta. É claro que funciona, mas só depois que vejo de fora, depois de publicado. Quando estou escrevendo, geralmente não faço a menor idéia do que vai dar. Eu sou guiada pelos personagens, simplesmente faço o que eles mandam. Pode ser que eles sejam parte de mim ou não. E pode ser que eles me representem também através de antagonismos.

G1: Quem te influenciou na literatura? Com que autores você dialoga?

MAYRA: Baudelaire, Bukowski, Jack Kerouac, William Burroughs, Hunter S.Thompson e o amado e temido Lester Bangs.

G1: E quem te influenciou na atitude e na vida? você sente nostalgia de uma contracultura que não viveu, dos anos 60 e 70?

MAYRA: Minhas influências são todas musicais. Acho que comecei a gostar do Marilyn Manson quando tinha uns 13 anos. Ele era o máximo naquela época, não havia perdido a perspectiva como agora, e falava diretamente comigo, me mandando não me importar com a sociedade que me julgava e dar o dedo do meio para tudo. Eu estudava numa escola elitista e me sentia muito diferente das outras pessoas. Era a ovelha negra.(Uma observação é que cheguei a entrevistar o Manson quando comecei a trabalhar como repórter musical.) Kurt Cobain também foi uma influência forte quando eu era nova, pois cheguei a morar em Seattle, no apartamento da gravadora que havia lançado o primeiro disco do Nirvana. Eu me sentia confortável na melancolia do Kurt, confortável para abraçar minha tristeza quando sentisse vontade. Nessa época eu me sentia muito feia, e adorava escrever cartas de suicídio. Mais tarde, comecei a me espelhar no Iggy Pop, nos Ramones, e em toda a galera do punk. Em geral, sempre quis ter coragem de fazer qualquer coisa que tivesse a fim sem me importar com a opinião dos outros. Consegui. Mas não gostaria de ter vivido nos anos 60 e 70. Tirando a música, imagina a merda que devia ser?

G1: Que importância têm hoje na sua vida 1) o sexo, 2) as drogas e 3) o rock’n'roll?

MAYRA: Você quer que eu fale o quão importante é o sexo pra mim? Acho uma pergunta estúpida, pois o que seria da vida sem sexo? As drogas foram uma maneira que eu encontrei de escapar para outro mundo em momentos de tristeza profunda com qual eu não sabia lidar. Acho que todos os adolescentes experimentam alguma droga durante a fase de insegurança, descobertas e medos. A diferença é que eu usei um monte delas, mas honestamente, não tenho o menor preconceito contra mim. Fiz o que quis e ponto. Precisava disso naquela época. Sou honesta para admitir, pelo menos. Sobre o rock, vamos lá, é simplesmente a minha vida. Meu trabalho hoje em dia é escrever sobre rock, entrevistar grandes músicos de rock, ouvir álbuns de rock, e sempre estar nos shows. Sou colaboradora do site da revista Spin, a segunda maior de música dos EUA. Recentemente, aliás, estive na Finlândia a convite do próprio governo do país, para participar de reuniões em gravadoras, agências, associações de exportação, entrevistar bandas e fazer a cobertura de um festival de metal extremo. Foi minha recompensa por amar tanto o rock’n’roll. Foi a melhor viagem da minha vida.

G1: Você não tem medo de virar uma personagem de si mesma?

MAYRA: Que seja o que for pra ser. Não quero ter medo de nada.

LEIA UM TRECHO DO LIVRO:

“Eu fiz o esperado e deixei meu corpo se acostumar com mais fúria. Fiz o esperado com um sorriso amarelo no rosto e um fulgor nos olhos que não era de felicidade. Eram lágrimas raivosas que queriam pular e inundar tudo. Enquanto colocávamos as caixas marrons de papelão dentro do caminhão emprestado da floricultura, eu sentia vontade de explodir. Explodir, pois odiava tudo. Odiava Lukas, odiava a mudança, odiava as caixas, as coisas dentro delas, meu apartamento, as memórias, o passado, o presente, o futuro, as escolhas, o céu nublado, a floricultura, o tempo irreversível, a insônia, a vida a Morte, o vazio, o buraco negro, eu. E, no entanto, não odiava tudo tanto assim.”

Postado por Luciano Trigo em 19 de julho de 2009 às 18:10 em Máquina de escrever

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Fugalaça - Mayra Dias Gomes

MAYRA DIAS GOMES


Por Ramon Mello - 13/06/07


O UNIVERSO UNDERGROUND DE UMA "ROCKER-ESCRITORA"


Ela foge do estereótipo do escritor angustiado que se tranca em um quarto e sofre para escrever. Também não faz o tipinho coll ou intelectual para conquistar os pares da literatura. Mayra Dias Gomes, cujo sobrenome entrega a herança literária, estréia na literatura arrastando consigo o seu universo underground com o livro Fugalaça (Editora Record).

Como o próprio título sugere - fugalaça é uma corda comprida usada para adestrar animais -, o livro arrasta o leitor para um submundo onde as drogas, paixão e rock and roll participam como personagens. Sem temer as críticas e comparações, a jovem escritora ri quando dizem que seu livro tem um quê autobiográfico. Suas palavras têm o aval da polêmica Fernanda Young, que assina a orelha do livro.

Leia a entrevista e conheça um pouco mais o universo desta angustiada escritora!

Click(IN)VERSOS - Como surgiu a idéia do seu livro?

MAYRA DIAS GOMES - A literatura sempre fez parte da minha vida. O mundo onde nasci e cresci sempre me incentivou a ler e a escrever. A prática da escrita desde muito cedo foi uma das minhas atividades prediletas. Minha infância e minha adolescência estão descritas em minuciosos detalhes em diários que percorrem todas as idades. Escrever sempre foi uma terapia, uma maneira de colocar para fora sentimentos que me incomodavam e também de meditar sobre meus comportamentos. Na escola, escrevia peças, letras de músicas e contos também. Mantive blogs e mais tarde fui colunista de alguns sites alternativos, falando sobre shows de rock e resenhando CDS. O processo natural foi escrever um livro, esse sempre foi meu sonho. No começo, tinha medo das comparações com meu pai, tinha medo de me julgarem oportunista, e isso me fez hesitar um pouco. Um dia resolvi deixar pra lá e ir em frente com o que amava de verdade. Porém, era muito difícil estruturar meus pensamentos compulsivos e eu detestava tudo o que produzia. Um dia, sentei à frente do computador e decidi que só iria ler o que havia criado quando atingisse a metade da história. Quando cheguei lá, percebi que havia de fato material para um romance. Usei como inspiração o mundo que me cercava. O underground rocker carioca e paulista e o mundo elitista da escola onde estudava.


Click(IN)VERSOS - Quanto tempo levou para escrever esse livro? Foi difícil conseguir uma editora?

MAYRA DIAS GOMES - Escrevi compulsivamente por seis meses, durante meus 17 anos. Apresentei o manuscrito para um publisher amigo do meu pai que me indicou para a Editora Record. No dia do reveillon daquele ano, a Sonia Machado me ligou e disse que eles estavam pasmos e maravilhados com o livro. Deu-me boas vindas à Record e um enorme incentivo para começar o ano com o pé direito.



Click(IN)VERSOS - Na infância você era ligada nos livros? Recebia incentivo do seu pai?

MAYRA DIAS GOMES - Ler sempre fez parte da minha rotina. Meu pai vivia comprando livros para mim e eu era completamente apaixonada pelas palavras. Eu o admirava também, o que fazia com que eu quisesse escrever como ele.


Click(IN)VERSOS - Até que ponto ser filha do Dias Gomes ajuda e/ou prejudica o seu trabalho?

MAYRA DIAS GOMES - Meu pai deixou uma enorme porta aberta para mim. Conseguir publicar não foi difícil e despertar o interesse nas pessoas também. Como filha de um escritor, tive a honra de viver entre os livros, de aprender desde cedo a ter gosto pela coisa. Por outro lado, é uma pressão muito grande ser sua filha, pois muitas pessoas esperam que eu seja como ele, que eu aborde os mesmos temas e siga os mesmos caminhos. Ele era um grande homem e tem um acervo extenso, enquanto eu estou somente iniciando a carreira. Ainda preciso amadurecer demais, tenho somente 19 anos. A comparação, porém, não me incomoda, só me incentiva a querer ser cada vez melhor e maior.

Click(IN)VERSOS - Existe preconceito por ser filha de um escritor famoso?

MAYRA DIAS GOMES - Preconceito é o que não falta. Existem sempre aqueles que vão dizer que só cheguei onde cheguei porque tenho um sobrenome. Realmente tive mais portas abertas por esse motivo, mas escolhi o que fazer ao entrar dentro delas e estou traçando meu próprio caminho.


Click(IN)VERSOS - Por que convidar a Fernanda Young para escrever a orelha do seu livro?

MAYRA DIAS GOMES - Identifico-me demais com a Fernanda. Ela é bela, desbocada, complicada, tatuada, neurótica, psicótica, compulsiva e acima de tudo talentosa e polêmica. Polêmica no sentido que mais gosto da palavra: por falar o que pensa e simplesmente ser quem é. Eu a convidei para escrever a orelha do livro, pois achei que ela capturaria a essência da história. Foi exatamente o que ela fez. Fiquei muito satisfeita.


Click(IN)VERSOS - Para quem você mostrou primeiro o livro?

MAYRA DIAS GOMES - Para o namorado que eu tinha na época em que escrevi. Eu o obrigava a ler tudo que eu escrevia, era uma chata.


Click(IN)VERSOS - Como está o retorno em relação ao seu trabalho? Como está lidando com as críticas?
MAYRA DIAS GOMES - Se recebi críticas ruins, não as li. O negativismo que encontrei vem de pessoas que não leram meu livro, que não me conhecem e que, como já disse, têm preconceito. Os leitores, por outro lado, estão demonstrando um imenso carinho pela história e pelos personagens. Já recebi até emails de pessoas que disseram que eu havia as ajudado a enfrentar situações particularmente difíceis como suicídio, morte e traumas. No final, é só isso que importa. O resto é passageiro.


Click(IN)VERSOS - Há muitos comentários sobre o seu livro ser autobiográfico. O que você diz sobre isso?

MAYRA DIAS GOMES - Ele não é autobiográfico. Existem doses fortes de realidade e doses fortes de ficção neste livro. A história é um mesclado daquilo que vivi com aquilo que presenciei. Seja através de pessoas que passaram pela minha vida ou através da minha imaginação. Satine é meu alter-ego, o outro eu - aquele que posso controlar e dirigir. Posso minimizar, maximizar, dramatizar, romantizar ou modificar sua história. Há uma grande semelhança com o mundo em que vivi, pois escrevo sobre o que sei e o que sei faz parte de quem sou.


Click(IN)VERSOS - A questão das drogas e do suicídio é muito presente no seu livro. Como você lida com este universo?

MAYRA DIAS GOMES - Detesto a maneira com que a sociedade tenta marginalizar esses assuntos ao invés de tratá-los com delicadeza, levando em conta os fatores psicológicos que existem por trás. Com o meu trabalho, tento mostrar a humanidade e o desespero das pessoas consideradas "drogadas", "perdidas","covardes", "malucas".


Click(IN)VERSOS - O que pensa sobre a comparação do seu livro com o Hell, livro da francesa Lolita Pille?

MAYRA DIAS GOMES - Gosto muito da Lolita e outras escritoras jovens que tiveram coragem de surgir com obras honestas sobre o mundo em que viveram. Acho a comparação inevitável e não me incomodo. Os temas dos nossos livros podem ser semelhantes, mas o desenrolar das histórias e a mensagem que passam são bem diferentes. Hell é uma menina niilista e conformada, já Satine sofre de sensibilidade profunda enquanto embarca em uma busca incansável por identidade, amor e evolução.

Click(IN)VERSOS - Por que você escreve?

MAYRA DIAS GOMES - Escrevo, portanto existo. Escrever é exorcismo, terapia, meditação, solilóquio.


Click(IN)VERSOS - Já pensa no próximo livro?

MAYRA DIAS GOMES - Já estou finalizando o segundo livro, mas também é surpresa. A verdade é que só consigo entender o que escrevi depois que já está pronto. Preciso ler e reler um milhão de vezes para transformar todas as palavras em um único pensamento. Elas são mais rápidas do que minha cabeça e os personagens tomam passos próprios.


Click(IN)VERSOS - O que você lê? Você lê seus contemporâneos?

MAYRA DIAS GOMES - Procuro estar sempre em dia. No momento, estou navegando no mundo de Fernanda Young.


   Click(IN)VERSOS - Quais são as suas maiores influências?

MAYRA DIAS GOMES - Sou fissurada pela literatura beatnik e junkie. Por Jack Kerouac, William S. Burroughs e Bukowki, principalmente. A minha maior influência ao escrever Fugalaça, porém, foi o livro Flores do Mal, do poeta Charles Baudelaire. Esse é meu livro preferido de todos os tempos. Os poemas são uma contradição e tratam de vazio, tédio, morte, insatisfação, excessos e amores não correspondidos. Foi minha maior influência literária, pois a história que escrevi trata dos mesmos temas.

Click(IN)VERSOS - Como é o seu processo criativo?

MAYRA DIAS GOMES - Não tenho rotina alguma. Esse é um dos fatores que me ajudou a escolher a carreira de escritora. Não tenho saco para acordar cedo, para ir trabalhar, para seguir uma seqüência. Escrevo quando a inspiração surge ou quando me obrigo a encontrá-la. Às vezes caio em hiato e sou forçada a viver novas situações para encontrar influência para o que vou criar.


Click(IN)VERSOS - O que você diria para um jovem que deseja se tornar um escritor?

MAYRA DIAS GOMES - Leia, leia, leia, escreva, escreva, escreva... Se não já era. Só a prática e a experiência podem formar um escritor.

Fugalaça é um retrato da juventude contemporânea e de seu desespero. Mas é também a história de uma garota. Em seu mundo nada cor-de-rosa, ela vive em algum lugar entre o prazer e a angústia. E caberá ao leitor condená-la ou absolvê-la. Utilizando uma linguagem pop, ágil e atual, Mayra surpreende ao contar a história de Satine, uma espécie de alter ego que mergulha fundo no clichê sexo, drogas e rock’n’roll depois de perder o pai aos 11 anos e ver sua entrada na vida adolescente tomar novos rumos. Uma estréia arrebatadora, Fugalaça traz em suas páginas a intensidade da juventude e o quanto ela pode ser libertadora e cruel.

Fonte:http://wwwb.click21.mypage.com.br/MyBlog/visualiza_blog.asp?site=clickinversos.myblog.com.br&primpost=x06Fvj2UUp7Sa74PxjT27616185424IRYHH3H0PF&inframe=T
Foto: Cristina Lacerda (Divulgação)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

101 dias em Bagdá - Åsne Seierstad


Como eu ando novamente relapsa com minhas leituras, estou postando uma entrevista com a jornalista Åsne Seierstad, autora do livro "101 dias em Bagdá" para dar um incentivo.

"O IRAQUE É UMA CALAMIDADE TOTAL", DIZ AUTORA DE BEST-SELLER

A norueguesa Åsne Seierstad, autora de "O livreiro da Cabul", escreve agora sobre sua experiência no Iraque em "101 dias em Bagdá"



Pablo López Guelli, do G1, em São Paulo - 01/11/2006


A escritora norueguesa Åsne Seierstad, que lança novo livro Quem vê a foto da bela loura norueguesa Åsne Seierstad, olhos claros e pele branca e delicada, nem imagina que seu trabalho é conviver com bombas, tiros e mortes. A especialidade dessa jornalista são as guerras, que a levam a passar meses em países tão violentos e diversos como o Iraque e o Afeganistão.


Recentemente, ela ganhou fama com o livro "O livreiro de Cabul", que freqüentou a lista dos mais vendidos no Brasil e em diversos países. Agora, ela lança "101 dias em Bagdá" (editora Record), um relato pessoal de sua experiência no Iraque antes, durante e após a invasão norte-americana e a conseqüente queda do regime de Saddam Hussein.


Segundo ela, a situação da segurança está se deteriorando rapidamente no país. "Há pessoas que não saem dos seus bairros há meses. Atravessar a estrada ou até uma rua pequena pode significar morrer, pois, entrando em outro bairro, corre-se o risco de encontrar o controle de outra milícia", diz a escritora.


Seierstad, que estará no Brasil no dia 2 de novembro para participar do Fórum das Letras de Ouro Preto (em Minas), não pára um minuto. Atualmente ela está viajando por vários países para falar sobre um outro livro que está lançando (sobre os Bálcãs), ao mesmo tempo em que trabalha para meios de comunicação escandinavos, holandeses, alemães e ingleses.


Correspondente de guerra desde 1994, cobriu confrontos internacionais para vários meios de comunicação que lhe renderam prestigiosos prêmios, entre os quais o “Free Speech Award”, em 2002, e o Grande Prêmio Norueguês de Jornalismo, em 2003.


Ela concedeu esta entrevista exclusiva ao G1 por telefone e e-mail, entre uma viagem e outra, ora respondendo às perguntas rapidamente antes de alguma palestra, ora no saguão de algum aeroporto antes de embarcar. No último contato, nesta terça-feira (31), desabafou: “Sou uma pessoa só!”



G1 - No começo do livro "101 dias em Bagdá" você fala de pessoas que vivem sob medo constante e às vezes dizem "queremos liberdade". Depois do início da guerra, você mostra pessoas questionando "onde está a democracia?", e fala das mortes e das desgraças. Qual é a sua opinião sobre a invasão norte-americana?
Åsne Seierstad - A ocupação do Iraque foi articulada em um misto de precipitação e farsa. Uma invasão mal calculada deu margem a conseqüências caóticas que colocaram a suposição na frente da realidade, com desdobramentos que o mundo terá que suportar durante décadas. Até mesmo os agentes da guerra, em Washington e Londres, sabem que não haverá uma retirada digna de honra. Eles estão se preparando para a retirada. A realidade militar e a conveniência política estão destruindo toda aquela idéia de paciência e reconstrução. A retirada dos americanos e ingleses deveria ser planejada com cuidado e discernimento, o que lamentavelmente ou, segundo alguns, criminalmente, estiveram ausentes no momento da invasão. Hans Blix, ex-chefe de inspeções de armamentos da ONU, resume a situação da seguinte forma: se os americanos ficarem no Iraque, o país não ficará estabilizado. Se eles saírem, correm o risco de deixar uma guerra civil para trás. Seja como for, o Iraque é uma calamidade total. A situação da segurança está se deteriorando. Há pessoas que não saem dos seus bairros há meses. Atravessar a estrada ou até uma rua pequena pode significar morrer, pois, entrando em outro bairro, corre-se o risco de encontrar o controle de outra milícia. Vários antigos bairros mistos de Bagdá foram palco de limpeza étnica, tendo em vista que seqüestros, intimidações e assassinatos forçaram a etnia ou o grupo religioso em minoria a fugir.


G1 - Como a violência se relaciona com a religião?
Seierstad - As pessoas são arrastadas de ônibus, carros ou mesmo das calçadas e são mortas se pertencerem ao grupo “errado” em determinadas áreas. Existem também assassinatos em massa como vingança, “você pegou um dos nossos, agora vamos pegar três dos seus”. As mesquitas locais exercem um papel fundamental. Os imãs organizam as milícias. Fornecem as coordenadas, armamentos e suprimentos. Os bairros ajudam com munição, outros levam cigarros, ou mais diretamente seus filhos, enquanto as filhas são mantidas trancadas em casa. Há um aumento do fundamentalismo. É esse o tipo de democracia que os americanos queriam no Iraque?


G1 - O que mais te marcou nessa guerra?
Seierstad - Como um país totalmente controlado acabou num caos total, um pesadelo horroroso na vida real, onde todos têm medo de todos. Antes da guerra, podíamos caminhar pelas ruas depois da meia-noite com o bolso cheio de dinheiro e nada de ruim nos acontecia, enquanto pessoas morriam por motivos políticos ou religiosos nas mãos de Saddam. Passou-se de uma situação ruim para outra tão ruim quanto. E em meio a tudo isso as pessoas vivem.


G1 - Você esteve presente nos dois países invadidos pelos norte-americanos nos últimos 5 anos. O que você acha da política deles em relação à democracia mundial e ao combate ao terrorismo? Trata-se de uma intenção real ou é apenas um argumento usado para manter a hegemonia no mundo?
Seierstad - Acho que tem a ver com a hegemonia do petróleo e do mundo.


G1 - Em "O Livreiro de Cabul" você escreveu sobre a vida no Afeganistão e as condições críticas enfrentadas pelas mulheres. Você acha que nós devemos sempre tentar compreender outras culturas e respeitá-las ou, em alguns casos, como durante o regime talibã, é preciso interferir para combater certas injustiças?
Seierstad - Não acho que os Estados Unidos tenham interferido para ajudar as mulheres afegãs. Se esse fosse o motivo, a essa altura eles teriam ou deveriam ter feito mais. As condições em que vivem as mulheres, afinal, não estão assim tão melhores do que na época dos talibãs. Bem, agora as garotas podem ir à escola, mas não há escolas suficientes. Por isso construí uma escola no Afeganistão para 600 meninas, que está no segundo ano de funcionamento, com bons resultados. Também apoiei a educação para enfermeiras e parteiras, uma vez que o Afeganistão é o país com o mais alto índice de mortes em partos do mundo, com mortalidade tanto da mãe quanto do bebê. Ou seja, há muito a fazer. Acho que não devemos aceitar a repressão e as violações aos direitos humanos. Mas não podemos apenas criticar, devemos também mostrar que queremos melhorias ajudando, e não acho que estamos ajudando o suficiente para construir um Afeganistão seguro e justo.


G1 - A que você atribui o enorme sucesso de "O Livreiro de Cabul"?
Seierstad - Acho que há um enorme anseio e necessidade por livros que contem a história por trás do que vemos nos noticiários de TV. O Afeganistão está nos noticiários há cinco anos, e acredito que as pessoas tenham curiosidade em saber quem são os afegãos. Bem, eu tive, e por isso fiquei no Afeganistão depois que a guerra acabou, ou seja, após o término das incursões dos americanos em 2001, para poder compreender mais a fundo a vida familiar afegã, pois este ainda é o alicerce da sociedade afegã. Acho que parte do sucesso também se deve ao fato de o livro ser escrito como um romance. Não é uma obra jornalística clássica, embora meus métodos sejam clássicos e bem aplicados. Acho que o livro penetra na mente das pessoas descritas no livro, sempre é claro com base no que me contaram. E por fim: é uma família fascinante, e tanta coisa aconteceu durante minha estadia com eles, na primeira primavera depois da queda do talibã.


G1 - É verdade que Sultan, o livreiro, quis processar você por causa do livro?
Seierstad - Sim, é verdade. Já faz três anos que ele fala em me processar, desde a publicação do livro em inglês. Ele esteve na Noruega diversas vezes e já está no terceiro advogado, mas parece que nunca entram num acordo. Ele também jantou comigo algumas vezes e até visitou a casa dos meus pais em Lillehammer e almoçou com todos nós. Ele também escreveu seu próprio livro sobre a história toda, chamado “Era Uma Vez um Livreiro de Cabul”. Em 14 de novembro vamos nos encontrar numa audiência preliminar para tentar chegar a um acordo, então veremos que fim isso terá. Espero que possamos resolver isso com livros: eu escrevi o meu, ele escreveu o dele. Não acho que o lugar de literatura seja nos tribunais.


G1 - Seu estilo de escrita é agradável pela fluidez e franqueza. E por meio desse estilo você foca mais nas pessoas, na vida delas e seus sentimentos, do que em questões geopolíticas. Você acredita que essa seja a melhor maneira de os jornalistas sensibilizarem o público?
Seierstad - Acho que precisamos de vários tipos de estilos de escrita. O político, o factual, e o mais baseado em conhecimento, além do que foca a cultura, as emoções e os pensamentos humanos. Precisamos não só de informação, mas também de conhecimento, sem contar a compreensão sobre “os outros”. Como correspondente de guerra, meu dever é relatar o que acontece, assim como as conseqüências da guerra.


G1 - Em um filme famoso sobre Ruanda, um jornalista grava cenas de uma chacina que estava acontecendo perto do hotel onde se hospedava. Ele mostrou as imagens em seu país, mas isso não impediu a guerra civil. Antes de abandonar Ruanda, ele comenta com um amigo africano: "As pessoas vão ver estas imagens durante o jantar, irão comentar sobre o absurdo da guerra e, em seguida, mudarão de assunto e esquecerão o que viram". Essa é uma visão pessimista ou os correspondentes de guerra ainda podem mudar a realidade e salvar vidas?
Seierstad - Não podemos mudar o mundo, mas podemos tentar disseminar o conhecimento, as informações e a compreensão. Se não fôssemos checar o que acontece no local, os exércitos e generais nos encheriam de mentiras. Vamos até lá para descobrir algo sobre eles, tentar buscar a verdade do que ocorre à nossa volta.

Fonte: http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,AA1333804-5602,00.html